junho 20, 2022

o suficiente

Gosto de escrever à mão — mesmo que as notas do Google Keep sejam mais ágeis ao memorizar alguma ideia enquanto tô na rua. Ainda assim, isso me faz amar o costume de escrever cartas, desenhar e registrar a vida sempre que posso. Desde sempre faço disso uma constante, algo bom para ver diante de mim o que eu senti primeiramente do lado de dentro. Então, folhear páginas enquanto escolho qual música vai me acompanhar é uma das bonitezas que param aqui (e ficam).


As fotografias de hoje surgiram semana passada. Publiquei uma delas lá no Instagram, seguida de um emoji de coração. Sem contexto, somente o coração. Por trás desse emoji tinha muito sentimento, aí a publicação de hoje pediu para estar no blog.




 
Tô prestes a concluir esse caderno. Páginas amarelas, capa dura na cor preta. Adiava muito a ideia de ter um caderno e escrever nele, mas fui mudando ao longo do caminho. Durante uma das terapias que tive em 2020 (inclusive, saudades), a psicóloga conversou sobre a importância de cultivarmos sonhos e acabou citando um pesquisador. Devo ter comentado aqui algumas vezes, mas durante a pesquisa, ele descobriu que dos entrevistados, aqueles que tiveram as feridas superficiais na pele saradas mais rapidamente foram os que criaram o hábito de escrever. Aqueles que não escreviam sobre angústias ficaram com a ferida por mais tempo.

Esse hábito, o de escrever, acaba não sendo diário por aqui. No entanto, é algo presente sempre que dá. O suficiente. Penso que isso torna a escrita mais especial — e não só ela, mas a vida.







junho 10, 2022

celebrando junho

A lembrança mais antiga que tenho de comemorar aniversário começa em 1997 com a minha festinha de um ano. 

 

Balões cor-de-cosa, bolo quadrado com os dizeres parabéns laryssa feitos em doces. Ao redor, crianças, todas da vizinhança, e os meus familiares mais próximos. As fotografias me fazem recordar perfeitamente de cada detalhe daquela sala que ainda existe. Depois disso, a ideia de comemorar aniversário não foi nada comum durante a minha vida. Em casa, substituímos a festinha por bolos raros e pontuais — o que sempre me fez amar saber que maio sairia de cena para o mês de junho começar. 

 
Esse ano fazer aniversário foi, no mínimo, diferente. Contraí algum vírus que me deixou fraca, com febre altíssima e sentindo dores. Ainda me recupero, mas na emergência a médica disse que poderia ser zika. Assim passei a minha semana de aniversário. Eu só não contava com algumas voltas e com o fato de ter levado o meu caderno para a urgência. Não sei decifrar parte das palavras (foto acima), mas sei que me forcei muito a escrever para não esquecer daquele momento. “Quando der, comemoro o meu 1 de junho”. A frase teve efeito e foi aí que esta publicação nasceu. 





Era domingo, quando à porta chegaram amigos. Bolo e doces nas mãos. Chorei. Na hora, nem lembrei de fotografar, mas lembro de ter chorado muito. Amo comemorar. De um jeito ou de outro, gosto de celebrar. Música, comida, palavras — o que for considerado celebração. E fazia um tempo que eu não me sentia “viva” para perceber isso. A pandemia mudou algumas coisas aqui dentro e uma dessas coisas foi a minha coragem. Porém, o bom de viver está nisso. Existem pessoas que pegam a nossa mão e vão nos lembrando que celebrar ainda é possível.
 
Trouxeram palavras, carinhos e leituras. Dentre elas, “Tudo é rio”, “Cartas a um jovem poeta” e um livro da série Clarice na cabeceira (Editora Rocco). Tenho retornado às atividades gradualmente e esse pouco inclui ler e escrever. Mal posso esperar para partilhar essas descobertas literárias aqui com vocês. Enquanto isso não acontece, deixo alguns registros do começo do meu junho que teve direito a muitas emoções e aventuras.









Aproveito para agradecer a todo mundo que deixou amor por aqui e no Instagram <3 Dias antes de adoecer, fui criando uma playlist no Spotify prontinha a receber junho. Ela tem ficado muito especial (nesse momento, toca a canção 1996) e o meu presente e partilhá-la aqui também:

 


junho 01, 2022

aniversário

 



 

 

 

 

1 de junho
meus 26 anos por aqui
quero
desejo
espero
sentir a vida desse jeito
sempre que der
porque viver com sentimento
é o que me resta
então
que eu sinta
que eu sinta
que possamos sentir

 

maio 27, 2022

as águas de Carla Madeira em "Tudo é rio"

Guardo o sentimento de que alguns livros nasceram para me encontrar. Não são recomendações vindas com o acaso, mas nasceram para me encontrar. Foi isso que senti ao ler o livro da brasileira Carla Madeira. “Tudo é rio” traz a vida de Dalva e Venâncio, casal marcado por uma tragédia provocada pelo ciúme do marido.
 

 

Em primeiro lugar, a sensação que Carla deixou aqui é a de encontro. Sua escrita aproxima sentimentos e me fez sentir a história de cada personagem de forma íntima. Li um diário cheio de memórias de cada um que passou pela escrita dela. Apesar de tantos detalhes, a autora não deixou isso cansativo, mas prazeroso de ler. Isso é importante, pelo menos para mim. Passear pela vivência dos personagens traz uma conexão bonita com a leitura. Poética, eu diria. Essa partilha em detalhes sobre a história conseguiu me dizer um pouco mais sobre a trama e até mesmo conseguiu dar nome aos incômodos que senti — a mágica da leitura tá nisso aqui.


 

perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho. para quem está sozinho depois de ter amado, o fim do dia é muito triste

 

 

Assim, entre Dalva e Venâncio, o casal, também conhecemos Lucy, uma prostituta. É impossível não reparar na sua história, na solidão da sua vida e nas escolhas que ela precisou fazer. Lucy é essencial em “Tudo é rio”. Apontar para um puteiro e dialogar sobre os cheiros, as cores, falar sobre cada pessoa que ali está aponta sobre o que o livro quer, de fato, tratar. Um convite a reparar (bem) na vida que pulsa e nos sentimentos que cada um suporta carregar. Penso que esse é o grande ponto da história. O que conseguimos suportar em nome do amor? Será que algo passa despercebido em nome dele?

 

Carla nos surpreende outra vez respondendo a essas questões. Acredito que ela conseguiu mostrar que nada passa despercebido, pois tudo está guardado em nós. Não conseguimos anular, por completo, aquilo que nos feriu. Sentimos no corpo, no peito, na rotina. Eu falaria por horas sobre a problemática disso, em como, principalmente, nossos sentimentos flutuam feito rio (e não param). Em como, até para suportá-los, precisamos passar pelo desencontro e a incerteza. A obra de Carla não foge dessa comparação e vai visitando algumas faíscas de sentimentos que habitam em lugares de nós. Feito rio em nós.



 

 <3



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